OS
PARTIDOS POLÍTICOS.
ORIGEM,
EVOLUÇÃO E TIPOLOGIA.
SISTEMAS PARTIDÁRIOS.
Por:
José Veloso da Costa
2007
Introdução
O
presente texto é um trecho da minha monografia apresentada na extinta Faculdade
de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, para a obtenção do
grau de Licenciado, cujo título O Papel dos
Partidos Históricos na Instauração da Democracia em Angola, no período de 1974 a 1991, emergiu da necessidade esclarecer
o papel que os partidos políticos angolanos, políticos e outras organizações
desempenharam para democratização do país.
Contudo, nesse excerto pretende-se fazer uma abordagem sucinta aos
partidos políticos no que toca a sua origem e evolução, as definições
existentes, a sua tipologia, os fins e funções e finalmente os sistemas
partidários, visando elucidar o leitor sobre os conceitos e características
dessas organizações encontradas na literatura.
Com base numa metodologia qualitativa, fez-se uma fundamentação
teórica nalgumas obras de autores de referência para o Curso de Ciência
Política, tais como Os grandes sistemas
políticos de Maurice Duverger, A
ciência política de Adriano Moreira, Curso
de ciência política de Gianfranco Pasquino, Introdução a ciência política de Donatela Della Porta, Ciência política de António José
Fernandes, bem como na Lei de Partidos Políticos.
1-
Partidos Políticos
Antes
de mais, importa elucidar o leitor sobre uma questão recorrente quando se fala
de Ciência Política. Desde 2003, altura em que arrancou o primeiro curso
superior de Ciências Políticas em
Angola, os estudantes eram inúmeras vezes questionados sobre o objectivo desse
curso, bastas vezes confundido com Política
porquanto o entendimento da maioria era (ainda é) que o perfil de saída dessa
formação era formar quadros para partidos políticos que posteriormente seriam
deputados a estruturas dos partidos, Assembleia Nacional ou desempenhariam
funções no Governo.
Com
vista a dissipar eventuais dúvidas, remetemos a seguinte distinção de Diogo
Freitas de Amaral: A Política é uma
actividade competitiva e directiva que visa a luta pelo poder e também consiste
em governar os povos, enquanto que a Ciência
Política é uma ciência que estuda a Política
como competição e como governação (2012).
Quando se fala em Democracia pensa-se logo em
partidos políticos, pois uma característica desta é a ocorrência de pleitos
eleitorais regulares e a ausência destes, serve para que especialistas,
jornalistas, académicos, políticos e a opinião pública nacional ou
internacional critiquem ou qualifiquem o nível de democratização dessa
sociedade.
Para
que haja eleições é necessário que existam partidos políticos legais e que
concorrem em igualdade de oportunidade para o alcance do poder, formar governo
e traçar políticas públicas. Mas o que são partidos políticos? Como surgiram?
Que tipos de partidos existem? As respostas serão dadas nas linhas
subsequentes.
Os Partidos
Políticos “são associações sociais que
lutam pela aquisição, manutenção e exercício do poder” (Moreira: 2003, p171).
Podemos também entender os Partidos Políticos organizações de cidadãos, de
carácter permanente, autónomas, constituídas com o objectivo fundamental de participar
na vida política do país, concorrer livremente para formação e expressão da
vontade popular e para organização do poder político, de acordo com a Lei
Constitucional e os seus Estatutos e Programas, intervindo nomeadamente, no
Processo Eleitoral mediante a apresentação e patrocínio de candidaturas (vide
art. 1º da Lei 4/92, de 27 de Março).
Ao longo dos tempos várias foram
os autores que estudaram os Partidos políticos a partir de varias perspectivas
e/ou abordagens. O quadro a seguir mostra de uma maneira mais resumida as
distintas abordagens e os respectivos autores:
Objectos
|
Autores/Correntes
|
Abordagens
|
Origem dos partidos
|
Lipset/Rokkan;
Duverger;
Lapalombara/Weiner (funcionalismo)
|
Sociológica;
Da competição sociológica
|
Ideologia dos partidos
|
Downs (“escolha nacional”)
Von Beyme
|
Da competição institucional
|
Organização
|
Michels; Panebianco; Mair
Duverger;
Eldersverd (behaviourismo)
|
Institucional;
Da competição sociológica
|
Funções
|
Almond (Funcionalismo);
Epstein (Funcionalismo)
|
Sociológica;
Da competição
|
Envolvimento
|
Marxismo;
Análise sistémica
|
Sociológica
|
Fonte: Farelo e Freire, Partidos Políticos E Sistemas Eleitorais, Celta
Editora, 2002, p-15.
Existem quatro etapas históricas
da evolução dos partidos politicas segundo Sailer (2000: 137), que são a “Pré
– história da Ciência Politica, o Founding – fathers,o período
axial da Sociologia Politica e, por fim, o lançamento do debate
aberto por Duverger”.
1.1 - Origem e Evolução dos
Partidos Políticos.
De acordo com Farelo e Freire (2002,10-11) “os partidos políticos
nasceram com a Democracia Representativa nos finais do séc. XVIII devido a uma
multiplicidade de premissas, nomeadamente a instauração das Democracias, o
Sufrágio (apesar de Censitário a priori) e o Sistema de Representação Politica
que deram origem aos Parlamentos. Madison e Tocqueville argumentam que os
partidos emergiram onde existiam importantes diferenças entre a população
porém, essa não é a condição suficiente”.
Com o passar dos anos, mais propriamente, no séc. XIX, os
deputados que partilhavam as mesmas convicções politicas imbuídos pela
necessidade de se organizarem dentro do parlamento fez com que unissem em
grupos denominados Comités Eleitorais.
Esses partidos são considerados partidos de criação interior ou partidos
parlamentares. Porém, naquela altura vigorava o Sufrágio Censitário. Os
primeiros partidos políticos aparecem na primeira metade do séc. XIX e foram o Whigs e Tories na Inglaterra, os Liberais e democratas nos E.U.A. e os
Liberais na Bélgica(idem).
Na visão de Duverger (1994: 15-22) os Partidos Políticos passaram
por três fases de desenvolvimento:
1-
A promoção dos parlamentos e o
nascimento de grupos parlamentares;
2-
A formação dos comités eleitorais
locais;
3-
A criação de relações permanentes
entre grupos parlamentares e comités eleitorais.
Os partidos de criação exterior, isto é,
aqueles que têm origem fora dos parlamentos surgiram após o Reform Act de 1832 e as Reformas
Eleitorais de 1867
e 1885 na Grã-bretanha que alargaram o Corpo Eleitoral. Outro
factor de suma importância é o desenvolvimento do Socialismo e suas teorias que
deram origem aos partidos socialistas que tinham como base de apoio os
proletários e contestavam o status quo.
Nesse tipo de partidos enquadravam-se os partidos socialistas, grupos étnicos,
associações de defesas de classes, etc.
Após a Segunda Guerra Mundial subiram ao poder em vários países os
partidos cujo objectivo era destruir o Estado Liberal e a mudança do Sistema
Económico, estamos diante dos Partidos Únicos inspirados pelo Socialismo que
quase colapsaram a Democracia Liberal e o parlamentarismo.
A década de 70 trouxe consigo um alto nível de cepticismo do
eleitorado face ao sistema partidário e, como consequência, o voto deixou de
estar ligado as classes e nascem então os Catch
All Parties ou Pigliatutto
que (Kirchheimmer apud Pasquino:1996:190) defende que «não se trata da propensão dos partidos de massa, principalmente, para
adquirirem recursos e cargos mas, trata-se da vontade de alargar ou expandir ao
máximo a sua base de eleitoral apoio sem distinções mesmo que prejudique a sua
identidade».
1.2 -Definição de Partidos Políticos.
Definir partido político
é deveras complexo na medidas em que as divergências entre os politólogos
consiste no enfoque usado para defini-los, todavia, é imperioso ter em conta a
que a finalidade de todo e qualquer partido político é o poder, isto é, a
aquisição, manutenção e o exercício do poder.
Marcelo de Sousa reuniu as definições de Partidos Políticos em 3
grupos (Sá: 2000, 297):
·
O primeiro grupo evidencia o carácter orgânico do partido político,
corroborada por Duverger que considera os partidos como a reunião de grupos
disseminados pelo país e Webber que o define como relações sociais de tipo
associativo;
·
O segundo tipo analisa o partido como portador
de um ideal a prosseguir, nesta esteira encontra-se Lenine e Georges Bordeau;
·
O terceiro e último tipo de
carácter funcional, assente nas
funções que eles devem exercer, para Raymond Aron, Coleman e Robster.
Como já referimos os Partidos Políticos são organizações tão
recentes como a própria Democracia Representativa e são considerados por nós
como um dos actores mais importantes da democracia. Por exemplo Max Webber
considera como organizações livremente criadas e que pretendem fazer
recrutamento livre, o seu fim é sempre a procura de votos para cargos políticos
(Della Porta: 1974, p707).
Sartori (1976:63) afirma que «um
partido é (…) qualquer grupo político identificado por uma designação oficial
que se apresenta às eleições e é capaz de colocar, através de eleições (livres
ou não) candidatos em cargos públicos».
Já dissemos anteriormente que os partidos políticos têm como
finalidade a contenda pela aquisição, manutenção e exercício do poder. Essa definição mostra claramente
a essência de um partido político. Qualquer uma dessas definições deixa
subjacente a ideia de Conquista do Poder como a característica que torna uma
organização num partido político e a conclusão que os vários teóricos chegam é
que existem três elementos para classificar um partido (Moreira: 2003, p171):
- Seja dotada de estruturas que permitam a
participação dos seus inscritos;
- Esteja em condições de
formular um programa de políticas públicas;
- Possa perdurar para
além de um acto eleitoral.
Assim, espera-se que os partidos perdurem no tempo e devam ter
âmbito nacional, ou seja, devem estender-se a todo o território e demonstrar vontade
de alcançar e exercer o poder (Fernandes:1995).
Uma definição mais completa encontramos na Lei dos Partidos
Políticos da República de Angola, define-os como são organizações de cidadãos,
de carácter permanente, autónomas, constituídas com o objectivo fundamental de
participar na vida politica do país, concorrer livremente para formação e
expressão da vontade popular e para organização do poder politico, de acordo
com a Lei Constitucional e os seus Estatutos e Programas, intervindo
nomeadamente, no Processo Eleitoral mediante a apresentação e patrocínio de
candidaturas (vide art.º. 1º da Lei
4/92, de 27 de Março).
1.3 – Tipos de Partidos
Os anos 20 do séc. XX marcou o Ocidente, pois viu nascer os
partidos políticos e os sistemas partidários, as tentativas de classificação
destes iniciaram com max Webber.
A célebre classificação de
aponta para a existência de dois tipos de partidos:
Partidos de Quadros que integram
nas suas fileiras os “notáveis” e primam mais pela qualidade dos seus membros
do que a quantidade.
Partidos de Massas que
tiveram a sua origem fora do parlamento e estão mais preocupados a alargar a
sua base de apoio eleitoral. Dentro dos partidos de Massas encontramos os
Partidos Socialistas, Comunistas e os Partidos Fascistas Duverger (1985,
72-75).
É ponto assente que os partidos de quadros emergem em ambientes
liberais, elitista e congrega notáveis,
decorrente das imposições censitárias ao eleitorado. Por sua vez, os partidos
de massas resultam do alargamento do eleitorado e os cidadãos excluídos do
Corpo Eleitoral reclamavam o direito de participar da vida pública. A expressão
Partidos de Massas foi cunhada por
partidos socialistas.
Sigmund Neumann formulou uma nova distinção de partidos políticos.
Para o autor alemão existem os Partidos
de Representação Individual que têm um carácter sazonal, isto é, apenas se
activam nos períodos eleitorais e os Partidos
de Integração Social, estes últimos são dotados de uma organização mais
extensiva (Pasquino:2002).
Os crescentes índices de abstenção e o desinteresse do eleitorado
pela política, aliadas as transformações sociais ocorridas nas sociedades,
fizeram emergir um novo “tipo” de partido político: Catch All Parts ou pigliatutti.
‘«São partidos que não estão
afectos a classes ou tipos específicos de eleitores e resultam do aumento do
cepticismo dos eleitores quanto a politica e aos políticos. Esse tipo de
partido luta para expandir ao máximo a sua base de eleitoral apoio sem
distinções mesmo que prejudique a sua identidade» (Kirchheimer apud Della Porta: 2003, p176).
Esse tipo de partido resultam da necessidade do alargamento da
base de apoio, ampliar o número de eleitores e direccionar a mobilização a
todas classes ou extractos sociais, o que redundou também na mutação do ADN do
próprio partido.
1.4- Fins e funções dos Partidos Políticos
Os partidos políticos têm objectivos a cumprir que estão
intrinsecamente ligados as suas características ontológicas e de longe não
podem ser cumpridas por outras instituições. Falar de fins e objectivos é a
mesma coisa. Os fins dos partidos políticos são os objectivos para quais foram
constituídos. Apesar das divergências entre os demais teóricos, o consenso
entre os politólogos resume-se a dois fins essenciais:
·
Representar politicamente o povo
(essa representação serve para a democracia representativa como para a
ditatorial);
·
Participar no funcionamento e aperfeiçoamento
das estruturas politico-constitucionais.
As funções dos partidos políticos variam de autor para autor, isso
deriva do facto de existirem distintos tipos de partidos, destarte as funções
variam de acordo com o contexto em que cada partido foi criado. Por esta ordem
de ideias é normal que as funções de um partido de quadros difiram das de um
partido de massas ou das de um partido de integração social. Encontramos um
denominador comum nas cinco funções seguintes que se enquadram na realidade dos
diferentes tipos de partidos.
Segundo o Professor André Sango as funções
variam de acordo com o contexto em que cada partido foi criado e
podemos citar:
·
Concorrer para o sufrágio
universal;
·
Lutar pela independência de um
povo;
·
Formar a opinião pública;
·
Propor candidatos às eleições;
·
Disciplinar os eleitos
1.5 – SISTEMAS PARTIDÁRIOS
Ao falar sobre os partidos políticos não podemos olvidar os
Sistemas Partidários que é entendido por nós como a relação entre o número de
partidos políticos que existem num sistema político, a sua extensão e o tipo de
relações que estabelecem entre os partidos e o Estado.
A análise dos sistemas de partido foi estreada por Maurice
Duverger, tendo usado nos seus estudos o critério da quantidade.
O critério numérico foi criado por Artur Holcombe em 1933. É o
número de partidos existentes numa sociedade que definem se um estado é
Monopartidario, Bipartidario e Multipartidário, assim obtemos (Duverger apud Sá:2000, 312):
·
Sistema Monopartidário ou de Partido
Único:
·
Sistema de Partido Liderante ou
Hegemónico. Assemelha-se ao Sistema Monopartidário porém, o partido no poder
não é o único mas detém a liderança e limita a ascensão de outros partidos ao
poder.
·
Sistema Bipartidário: Há uma
tendência ideológica dos dois maiores partidos.
·
Sistema Multipartidário: Onde existem
mais de três partidos políticos.
Como
exemplo de sistema de partido único temos o caso de Angola no período de 1975 a
1991, em que o MPLA era o partido-estado. Quanto ao Sistema Bipartidário, os
exemplos mais paradigmáticos são os Estados Unidos da América com o Partido
Republicano e o Partido Democrata, e na Grã-Bretanha, os trabalhistas e
conservadores. Isso não quer dizer que não existam outros partidos, porém
apenas dois se destacam.
Sobre o sistema de partido hegemónico temos como exemplo do
Partido operário Unificado polaco e o Partido Revolucionário Institucional no
México que governou no séc. XX. No que toca ao sistema multipartidário, o mais
usado pelos países democráticos, foi adoptado em Angola Março de 1991, após a aprovação
pela Assembleia do Povo da Lei nº 12/91 que emendavam a Lei Constitucional de
forma a abrir caminhos para o multipartidarismo.
Para Giovanni Sartori a classificação de um sistema partidário
depende da importância que os partidos políticos têm em relação aos demais
elementos do sistema (Sailer: 2000).
Tabela 1 Classificação dos sistemas de partidos segundo
Sartori
|
Critério numérico
|
Logica de funcionamento
|
Sistemas não concorrenciais
|
Monopartidários
|
Hegemonia pragmática
|
Hegemónicos
|
Hegemonia ideológica
|
Sistemas concorrenciais
|
De partido predominante
|
Pluralismo moderado
Pluralismo polarizado
|
|
Bipartidários
|
|
Multipartidários limitados
|
|
Multipartidários extremos
|
|
Pulverizados
|
Fonte: Sartori(2002, p166)
Conclusão
Os partidos políticos
constituem um meio para expressão da democracia, pelo que não se fala em
democracia se estes não existirem. Contudo, Sartori (2002) chama atenção de que
estes devem ser estáveis, duradouras e disseminadas.
A
par disso, jogam um papel preponderante na sociedade desde a apresentação de
programas à implementação de políticas públicas que os diferem de outras
organizações que existem nas sociedades.
Consequentemente,
dada a mudança na sociedade contemporânea, o acesso a informação e uma
tendência para o absentismo cada vez maior nos pleitos eleitorais, os partidos
devem organizar-se e enraizar-se cada vez mais na sociedade, apresentar
programas que coincidem com as expectativas cada vez mais exigentes dos
eleitores, programas inclusivos e Políticas Públicas que possam gerar outcomes positivos.
Referências:
- DELLA
PORTA, Donatella. 2003, Introdução a ciência política. Estampa
editora. Lisboa.
- DUVERGER,
Maurice, 1985, Os grandes sistemas políticos,
Ed. Almedina, Coimbra:
- FARELO,
Fernando L. e FREIRE, André, 2002, Partidos políticos e sistemas
eleitorais, Celta Editora, 1ª edição, Oeiras.
- FERNANDES; António J., 1995, Ciência Política, Porto Editora, Porto.
- Lei
dos Partidos Políticos – Lei 15/91 de 11 de Maio.
- MOREIRA, Adriano, 2005,
A ciência
política, Ed. Almedina, Coimbra, 1ª edição.
·
PASQUINO, Gianfranco, 2002, Curso de ciência política,
Principia, 1ª edição, Cascais.
- SÁ,
Luís de, 2000, Direito constitucional e ciência politica.
- SAILER,
Daniel – Louis, 2000, Os partidos políticos, UnB, Brasília.